
M.Sayagues/PlusNews
Conheci o meu marido em 2001. Trabalhávamos juntos na Associação Luta pela Vida. Ele soube da minha seropositividade na primeira reunião em que participei. Foi nesse dia que contei que, dois anos antes, havia testado seropositiva, com 19 anos.
A partir desse dia ficamos colegas. Com o tempo desenvolveu-se uma forte amizade, que acabou em namoro. Penso que para que haja uma relação entre um casal discordante ambos têm de ter, além de muito amor, informação a cerca do HIV.
Quando eu fiz o teste, em 1999, não sabia nada sobre HIV. Só sabia que a SIDA mata. Não tinha esperança de viver, porque não haviam antiretrovirais em Angola, meu país. Felizmente tive acesso a Junta Nacional de Saúde e consegui antiretrovirais na África do Sul. Comecei a ver a vida de forma positiva, com esperança.
Três anos depois, eu já tinha informação clara sobre HIV/SIDA. Fiquei activista.
Quando ele falou em namoro, eu pensei: ele é meu amigo, sabe da minha condição, tem informação sobre a Sida, trabalha no ONUSIDA, trabalha com o meu médico, não acredito que me queira magoar.
Namoramos três meses e passamos a viver juntos. É claro que sempre tivemos a consciência de que sexo só com preservativo.
Como qualquer casal, temos tido algumas divergências. Sou muito ciumenta. Somos pessoas totalmente diferentes. Parecia difícil o entendimento. Posso dizer que, com o tempo, conhecemo-nos melhor e, ultimamente, há maior entendimento entre nós.
Estamos juntos há cerca de 4 anos e temos um filho de 2 anos.
Se ele te ama...Muitas pessoas que vivem com HIV, que eu conheço, optam em ter relações entre elas. Acreditam que a relação tenha maior chance de dar certo. Mas isso não é verdade.
O facto de duas pessoas estarem infectadas pelo vírus VIH não significa que terão o mesmo pensamento, o mesmo carácter, sentimentos iguais, que viverão juntos para sempre, nem que o amor será mais verdadeiro. O amor é muito relativo, quer seja numa relação discordante ou não.

Depois de tudo o que aprendi com a vida, percebo que antes de se consolidar uma relação afectiva, deve existir, em primeiro lugar, amizade, melhor conhecimento um do outro, e que os dois tenham muita informação sobre o HIV/Sida.
Mas, como existem pessoas seropositivas ainda sem coragem de assumir publicamente a sua condição, pelo menos, quando houver envolvimento sexual, que seja com responsabilidade, usando o preservativo.
Quando uma amiga me pergunta sobre casais discordantes (em que um é seropositivo e outro não), eu digo que se ele te ama, ele te vai aceitar mesmo na condição em que estás.
Esconder o estado, numa relação em que passamos o tempo a dizer "te amo", é muito chato. Eu não consigo me ver numa situação do género, escondendo a verdade.
Uma coisa importante é estares informada sobre a Sida e como conviver com HIV.
Podes procurar uma forma estratégica para ir com o namorado a sítios com informação sobre Sida - palestras, bibliotecas, centros de aconselhamento - e, se possível, a uma organização com pessoas HIV+. Assim, os dois podem habituar-se e ver que é possível conviver sem problemas.
Se num casal discordante alguém quer ter relações sexuais sem preservativo, antes de cometerem essa loucura, reflictam primeiro: viver com HIV é possível, mas não e fácil; viver sem ele é melhor. Por experiencia própria, digo que o HIV é um companheiro indesejável.
Amigos, família, maridoAprendi também a saber o que é uma verdadeira amizade. Muitos amigos afastaram-se de mim, quando souberam que eu era seropositiva. Isso foi bom, porque gosto que a pessoa demonstre a sua verdadeira face.
Entre os meus familiares, a situação foi a mesma. Os que gostam de mim de verdade não mudaram.
Acho que cada um deve ter a sua razão. Mas a falta de informação é a principal razão da discriminação de pessoas seropositivas.
Alguns já mudaram de atitude. Isso é, para mim, mais importante, apesar da mágoa que senti.
Quanto ao futuro...é meio confuso falar sobre isso. Tentamos - meu marido e eu - levar as coisas para o melhor. Amo muito a ele e vou lutar pelo nosso amor.
Fonte: http://www.plusnews.org/pt