Quando chegou a hora da resposta, a enfermeira conversou comigo até que me disse que era seropositiva. Procurou saber se eu era casada. Eu vivia com o pai do meu filho, mas não estava casada com ele. A enfermeira procurou saber também se ele alguma vez tinha feito o teste de HIV. Sabia que não.
Fui para casa, procurando as palavras para lhe dizer. Foi difícil, mas preferi contar a verdade. Ele reagiu bem, falamos entre nós e ele até decidiu fazer o teste. Assim foi, mas passou muito tempo e nunca chegou a dizer-me o resultado. Entretanto eu tinha começado a terapia antiretroviral para evitar transmitir o vírus ao bebé.
Quando chegou a hora da criança nascer, passei um mau bocado. A minha sogra insistia para eu amamentar o meu filho. Foi mesmo difícil lidar com isso: não queria contar a verdade para ela, porque sabia que não iria compreender.
E aí eu ia contando mentiras para ela, porque ela não acreditava que dava leite artificial ao bebé, porque os médicos aconselharam a não amamentar. Mas ela insistia, insistia.
Um dia o meu marido disse-lhe que era por vontade dele que eu dava leite artificial ao bebé. E a minha sogra calou-se.
A criança foi crescendo e chegou finalmente o dia do último teste: tinha completado 18 meses e aí saberíamos se estava ou não infectado. Foi um dia alegre, mesmo muito alegre, porque o bebé era são, não tinha apanhado nenhum 'bicho'.
Uma série de problemasPorém, o meu marido começou a ficar doente, mas a família não me deixava levá-lo para o hospital. Um dia ele próprio me pediu para leva-lo ao centro DREAM para fazer o teste. Já estava pálido, mesmo pálido. E estava infectado.
Logo começou a segunda linha de tratamento antiretroviral. Tomava muitos comprimidos por dia e não comia nada. Só tomava líquidos. Ele estava mal. Foi internado no Hospital Central de Maputo.
Foi um período mesmo complicado para a minha vida. Ele já não podia trabalhar e eu não tinha emprego, nem um biscate para aguentar. Em duas semanas ele acabou por falecer. Tinha chegado demasiado tarde!
Quando no hospital, a família acabou por saber que era seropositivo. Perceberam que eu também era e aí começou a outra tragédia. Tiraram-me tudo que tínhamos construído juntos. Sofri muito. Ele tinha morrido e eu estava num beco sem saída, sem saber como fazer crescer o nosso filho.
Falei com a coordenadora do programa DREAM e me ofereceu um emprego. Hoje sou activista da associação 'Mulheres para o DREAM', dou palestras, faço assistência domiciliária, que significa visitar os doentes mais graves em casa, fazer limpeza, dar coragem, dar de comer, enfim fazer aquilo que cada um de nós quer quando está doente.

Cida Alternag
Aconselho os outros a tomarem os antiretrovirais a tempo e hora. Dou o meu testemunho, porque eu sou como eles. Com o salário que ganho faço alguma coisa para o meu filho.
Hoje vivo com os meus pais e o meu único filho que tem três anos. Os meus pais não sabem que sou seropositiva. Tenho medo que possam sofrer, porque eu sou seropositiva. Não me interessa o que os outros pensam de mim, mas tenho pena dos meus velhos. Quero evitar que sejam discriminados por minha causa.
Sinto-me uma privilegiada. Fui tratada quando precisava e o meu filho nasceu são. Hoje tenho um trabalho.
Para mim, gostaria que todo o mundo tivesse acesso aos antiretrovirais. Porque é possível viver e trabalhar mesmo estando infectado. Só se deve chegar a tempo. Quando se chega tarde, já não há esperança.
O próximo passo é contar tudo aos meus pais. E começar uma acção legal contra quem me roubou a casa.
Não posso dar a cara nem o meu nome completo, porque ainda não contei aos meus pais. Por isso, escolhi o nome de Janete para contar a minha história.
Fonte: http://www.plusnews.org/pt