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HOEDSPRUIT, 23 Fevereiro (PLUSNEWS) - Janeiro é a estação das mangas em Hoedspruit, na província sul-africana do Limpopo. Nesta época, os colhedores sazonais, muitos de Moçambique e na maioria mulheres, afluem para as fazendas da região à procura de emprego.
As condições de vida nas fazendas fazem delas um terreno fértil para a propagação do HIV. Os trabalhadores vivem em alojamentos superlotados, longe de suas famílias.
Segundo um estudo realizado em 2004 pela Organização Internacional para as Migrações (OIM), os mitos sobre o HIV são muitos, o uso do preservativo é pouco difundido e o nível de comportamento sexual de risco é alto.
Com a chegada dos trabalhadores sazonais, a possibilidade de transmissão do HIV aumenta. É comum ver jovem mulheres, desesperadas para manter o emprego, terem relações sexuais com os supervisores, conhecidos como “indunas”; tornar-se a namorada de um supervisor durante a estação da colheita pode garantir o alojamento na fazenda e melhores condições de trabalho.
“Eu posso prometer trabalho para uma mulher em troca de sexo”, disse ao PlusNews um supervisor. “Muitos supervisores têm até 10 namoradas durante a estação”.
O estudo da IOM revelou que 52 por cento das trabalhadoras entrevistadas nas fazendas das províncias do Limpopo e de Mpumalanga já tinham tido relações sexuais em troca de comida, roupas, presentes ou dinheiro.
Em comparação com os homens, elas tem menos conhecimentos sobre o HIV/Sida, e são em número bem menor a usar preservativos em relações sexuais ocasionais. Uma das razões principais que elas mencionaram para não usar preservativos, foi que seus maridos ou namorados não gostavam de usá-los.
Questão de gêneroApós a publicação dos resultados do estudo, a IOM começou a associar-se ao Hlokomela, um programa de prevenção do HIV desenvolvido por fazendeiros da região. Mas estas intervenções não trataram da desigualdade das relações entre os trabalhadores masculinos e femininos.
“Tínhamos o sentimento de que era preciso uma intervenção que atingisse e envolvesse os homens”, disse Bafana Khumalo, diretor adjunto da Sonke Gender Justice, uma ONG com sede na Cidade do Cabo que lida com a Sida e com questões de gênero.
Em agosto de 2006, a equipe da Sonke Gender Justice organizou seminários de uma semana que atraíram participantes de 28 fazendas da região: supervisores, trabalhadores masculinos e femininos e fornecedores de cuidados da Hlokomela.
Durante os seminários, foram analisadas as atitudes tradicionais com respeito aos papéis do homem e da mulher, e a maneira como estas atitudes os colocam em situação de risco de infecção pelo HIV.
“O seminário mudou completamente minha vida”, disse Sam Baloyi, supervisor na fazenda Richmond. “Antes, quando eu batia em minha mulher eu ficava muito zangado, mas cinco minutos depois eu me sentia envergonhado, então eu queria mudar”.
Baloyi disse que agora ajuda sua esposa no trabalho doméstico, parou de beber e não tem mais namoradas. Ele ainda está criando coragem para fazer o teste do HIV.
AlarmanteNão existem dados oficiais sobre a prevalência do HIV entre os trabalhadores rurais na região de Hoedspruit, mas o Sindicato Nacional dos Fazendeiros Africanos estima que de 30 a 45 por cento dos trabalhadores rurais do país sejam seropositivos, o que é alarmante.
“Ainda há muita resistência ao teste do HIV”, disse Christine du Preez, diretora do programa Hlokomela e enfermeira. “Outro dia tivemos uma grande manifestação de sensibilização ao HIV, mas das 170 pessoas presentes, somente 5 fizeram o teste.”
Baloyi agora faz parte de um comitê rural chamado “Lifestyle Action Team” [Equipe de Ação para o Estilo de Vida]. Eles distribuem preservativos masculinos e femininos, e tentam mudar os comportamentos de risco.
“Nós estamos tentando envolver as pessoas no esporte e em atividades recreativas, para que eles bebam menos”, disse ele. “E não há mais nenhum shebeen (bar informal) aqui, nós fechamos todos”.
Victor Madike, supervisor de 41 anos, costumava só pensar em passar a mão nos seios e nas nádegas das trabalhadoras. Ele tinha muitas namoradas com quem ele nunca usava preservativos, e quando sua mulher desconfiava de seus namoros, ele respondia surrando-a.
Madike ainda prefere que sua esposa e seus seis filhos continuem na cidade, mas agora ele só tem uma namorada na fazenda, e ele usa preservativos.
“Eu não tenho tanto prazer quanto antes, mas eu aceito”, disse ele com seriedade.
Madike disse que aconselha os outros supervisores a não usarem de sua autoridade para assediar sexualmente as trabalhadoras.
Johann du Preez, administrador da fazenda Bavaria, notou um aumento considerável do número de óbitos entre seus empregados nos últimos anos, principalmente entre os que ocupam os cargos mais importantes, que têm recursos para oferecer algo em troca de sexo.
Segundo ele, a maioria dos fazendeiros preferiria investir na prevenção e no tratamento, a investir na contratação e treinamento de novos empregados.
Fazendeiros da região estão estudando a possibilidade de fundar uma clínica para fornecer tratamento antiretroviral (ARV) aos trabalhadores rurais. O ponto mais próximo de distribuição de ARVs do governo, o hospital Tintswalo, fica em Acornhoek, a cerca de 50 km, e o período de espera para o tratamento é de três meses, segundo Christine du Preez.
Com o apoio financeiro da OIM, da União Européia e do Departamento da Saúde, planeja-se organizar novos seminários. O objetivo final, segundo Khumalo, é de treinar a equipe do Hlokomela para que tome as rédeas do projeto.