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JOHANNESBURG, 28 Fevereiro (PLUSNEWS) - Cada ano a África recebe milhões de dólares em doações destinados ao HIV/Sida. A parte do leão vai para os governos e para as famosas ONGs internacionais que são reconhecidas como tendo capacidade para gerir somas importantes de dinheiro.
No entanto, inúmeras iniciativas locais modestas, que nascem das comunidades em resposta a uma necessidade urgente, lutam para receber uma parte destes fundos.
Flora Modiba, enfermeira, é desde 2000 a única fornecedora de cuidados da ida a domicílio no seu bairro em Tembisa, município de Joanesburgo.
Ela começou a visitar seus pacientes em seus dias de folga e levou três anos para conseguir uma doação para poder deixar o emprego e se dedicar completamente ao seu projeto, mas recebeu uma doação única, insuficiente, e excessivamente prescritiva.
“Eu acho que muitos doadores não entendem direito o que fazemos”, disse ela.
Modiba oferece cuidados paliativos, já que o único hospital de Tembisa não tem capacidade para cuidar dos cerca de 500.000 habitantes. Mesmo assim, nenhum de seus dois doadores quer pagar por remédios contra a dor e pelo pequeno salário mensal para os voluntários que cuidam dos 170 pacientes.
Ela acha que já deve ter feito mais de 50 pedidos de doações, mas sem sucesso.
A associação de Modiba ainda está se saindo bem, comparada a outras organizações semelhantes; muitas delas não têm capacidade para conseguir fundos nem para o salário dos fornecedores de cuidados.
“Eu passei o mês de janeiro inteiro redigindo propostas”, disse Elizabeth Rapuleng, que tem tentado sem sucesso angariar fundos para seu projeto de ajuda aos órfãos na província rural de Limpopo, na África do Sul, durante os dois últimos anos.
Ela tem oito anos de experiência na mobilização e na gestão de fundos em um projeto similar em Soweto, em Joanesburgo, mas muitos outros que começam projetos locais não tem experiência alguma na gestão de uma organização ou em redigir propostas de financiamento ou relatórios aos doadores.
“A maioria das organizações locais começam a funcionar mas acabam morrendo porque não tem capacidade para gerir os fundos”, disse Rapuleng.
Falta saber gerirOrganizações como a AIDS Consortium na Africa do Sul fornecem treinamento nestas áreas para às organizações afiliadas.
“Muitas vezes o programa tem um potencial, mas se você é uma “gogo” (avó) que está cuidando de 60 órfãos e nem teve a oportunidade de ter uma educação decente, a viabilidade é mínima”, disse Denise Hunt, diretora executiva da AIDS Consortium. “Aquela “gogo” vai precisar de muita ajuda para dirigir uma organização, para angariar fundos e saber como usá-los”.
Os doadores estão começando a compreender a necessidade de fornecer assistência técnica aos destinatários das doações. A União Européia (UE), em parceria com a Fundação Africana para a Medicina e Pesquisa (AMREF, em inglês), o Departamento da Saúde e a Cruz Vermelha Sul-Africana, esta a melhorar a capacidade organizacional dos grupos que eles financiam na província de Limpopo, na África do Sul.

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A Mapela Home-Based Care é uma das 23 organizações no distrito de Makopane que estão participando da iniciativa. Os fundadores, Kedibome Sebelebele e Salome Sekhu, começaram a fornecer cuidados a domicílio em 2002. Cinco anos depois elas tinham 117 pacientes registrados e 17 fornecedores de cuidados, mas pouca idéia de como gerir uma organização.
Com a ajuda da Cruz Vermelha, elas conseguiram o financiamento da União Européia e do Departamento da Saúde, mas agora estão lutando para fornecer os relatórios obrigatórios.
“Às vezes, quando fazemos um relatório, eles dizem que não é na forma certa”, reclama Sabelebele.
A primeira fase da construção da capacidade consistiu em uma série de seminários sobre a gestão financeira, governança, administração e recursos humanos.
Na segunda fase, um “mentor” da Cruz Vermelha visitou-as regularmente para ajudar à implementação destes conceitos.
“Agora nós temos uma diretoria, mas ainda precisamos de ajuda para definir os papéis de cada um”, disse Sekhu.
Sebelebele, que agora tem o título de diretora financeira, disse que precisava de um treinamento para aprender a usar o computador, pago pela União Européia.
Segundo Jon Siburi, coordenador da Cruz Vermelha do projeto, a falta de conhecimentos básicos de contabilidade é um dos motivos mais frequentes de perda do financiamento pelas organizações de base, mais do que a corrupção ou a má gestão intencional dos fundos.
Se a iniciativa der certo, ela poderá ser executada em outras áreas do país.
Interrupções e atrasosResolver o problema do financiamento não se resume a dar uma aula de gerência; os doadores têm requerimentos e ciclos de financiamentos, e seus próprios problemas administrativos.
“Estamos tentando gerir fundos que só existem no papel”, disse Patricia Mogale, diretora de um projeto de cuidados a domicílio na província de Limpopo. Ela estava esperando fundos de seu único doador em outubro, mas no final de janeiro eles ainda não tinham chegado.
“Nós não pudemos pagar os salários de nossos fornecedores de cuidados este mês”, disse ela. “E só na semana passada nos disseram que tinham perdido nosso contrato”.
Uma mudança na estratégia de um doador pode significar o fim de uma pequena organização.
A Rede Botsuanense de Organizações de Serviços do HIV/Sida (BONASO, em inglês) costumava distribuir fundos às suas afiliadas em nome da Parceria Africana Global contra o VIH/SIDA (ACHAP), uma parceria pública-privada entre o governo do Botswana, a Fundação Bill & Melinda Gates, e a indústria farmacêutica Merck & Co. Inc.
Quando a ACHAP decidiu distribuir os fundos através do governo local, a BONASO foi avisada com somente seis meses de antecedência. Segundo Daniel Motsatsing, diretor executivo da BONASO: “Alguns projetos que estavam funcionando bem faliram por causa desta medida; somente aqueles que tinham outros doadores sobreviveram”.
Modiba usou recentemente dinheiro do doador para comprar medicamentos contra a dor para pacientes terminais, que recebem pouco mais do que paracetamol da clínica local. “Eu tenho medo de que eles não renovem meu financiamento, mas para mim, usar o dinheiro para comprar remédios faz parte do cuidado ao paciente”, disse ela.
Ela entende a necessidade de responsabilidade – o receio dos doadores de financiar projetos que existem só no papel – mas acha que eles deveriam confiar mais nas organizações de base.
Denise Hunt nota que os doadores geralmente hesitam em financiar custos operacionais, como salários e despesas administrativas.
« Eles adoram órfãos e crianças vulneráveis”, disse ela. « Principalmente as empresas, eles querem que as crianças tenham o que comer; eles querem dizer: aqui está o nosso dinheiro e aqui está a resposta ».
Mas na realidade, para conseguir um impacto importante, deve-se empregar uma equipe eficiente, o que requer doadores para financiar as despesas principais.
Hunt, Modiba e Mogale falam em desenvolver esquemas de atividades geradoras de recursos, o que diminuiria a dependência dos doadores.
Modiba acredita que a doação de um container para instalar uma padaria, poderia ajudar o seu projeto em Tembisa. Por enquanto, ela trabalha numa cabana sem eletricidade e seus fornecedores de cuidados andam a pé.