 © L.Bonanno MACHAZE, 2 Março (PLUSNEWS) - Dentro de uma grande floresta, um caminho de areia leva a quatro palhotas. Samuel Campira mora na casa central, que é cercada por outras três, onde vivem suas esposas.
Campira, 38 anos, era madjonidjone, moçambicano que trabalha nas minas da África do Sul.
A sua história não e excepcional em Machaze, distrito ao Sul da província de Manica, a 325 quilômetros da capital provincial, Chimoio, que é tradicional provedor de mineiros para África do Sul.
Pela fronteira de Ressano-Garcia, a cerca de 800 quilômetros de Machaze, Campira chegou a África do Sul. Lá, conseguiu um emprego, mas assim como muitos outros madjonidjones, era avesso ao uso do preservativo e fazia sexo com prostitutas sem protecção.
Cinco anos atrás, acabou por trazer a Moçambique, não o dinheiro sonhado em conquistar na África do Sul, mas o HIV.
“Quando voltei das minas, passei o vírus as minhas três esposas inocentemente”, diz Campina ao PlusNews.
Em Machaze, há muita carência de informação sobre HIV/SIDA, segundo os moradores.
“É muito raro encontrar sobretudo senhoras a falarem da Sida, pois tem sido um peso, embora se esteja a morrer muito aqui por causa desta doença”, diz Sara Twenthy, 27 anos, viúva. Perdeu seu marido, também madjonidjone, vítima da Sida.
Henriques Augusto, Presidente da Associação dos Oficiais Desmobilizados de guerra, um organismo que ajuda na prevenção do HIV em Machaze, diz que é preciso “apagar a chama que está a arder” neste distrito devido à Sida.
“Os danos são muito nefastos, tendo em conta os lutos que isso esta a semear e o sofrimento das viúvas e das crianças órfãs”, comenta.
Órfãos abundam...
O crescente número de órfãos levou a um grupo de mulheres a criar em 2005 o Círculo de Interesse, uma associação para ajudar as crianças vulneráveis em Machaze.| Água é dinheiro para as viúvas | Em frente do terminal de autocarros, em baixo do sol forte, vê-se uma longa bicha de bidões de 20 litros de água.
Ali estão várias mulheres, na grande maioria viúvas, que vendem esta água, que foram buscar a 20 quilômetros de Chitobe, a sede do distrito.
Elas vão de bicicleta, que os maridos trouxeram da África do Sul.
A cada dia conseguem em média vender quatro bidões, a cinco meticais cada, o que no total corresponde à cerca de 80 centavos de dólar norte-americano.
Para além desta actividade, estas mulheres não têm outra ocupação, pois faz dois anos que não chove em Machaze, o que impede a agricultura |
“Juntamo-nos quando sentimos a necessidade de fazermos alguma coisa porque muitas crianças cuidavam doutras crianças”, diz Lissa Sibanda, directora do Círculo.
O grupo faz sensibilização porta-a-porta, onde cadastra as crianças desfavorecidas, que na sua maioria já é chefe de família. Das 2000 crianças órfãs identificadas, apenas 13 recebem ajuda directa.
Numa parceria com a Organização Suíça de Entreajuda Operaria, o grupo presta assistência médica, alimentar, escolar e vestuário às crianças.
Para complementar a renda, o Circulo de Interesse trabalha em costura, fabricação de tijolos e tecelagem.
Sibanda disse ao PlusNews que a sensibilização é reforçada nos dias em que os madjonidjones chegam de férias.
Contudo, Sibanda diz que é difícil fazer sensibilização em Machaze, pois muitas mulheres, quando vêem seus maridos irem as minas da África do Sul, aproveitam para ter com outros homens.
Seja em Machaze ou na África do Sul, o sexo não protegido com múltiplos parceiros introduz o vírus na família.
“É uma desgraça para as crianças”, diz Sibanda.
...e falta tratamento
Assim como as campanhas de sensibilização, a distribuição de medicamento antiretrovirais é pequena em Machaze.
Até o final do ano passado estavam inscritos no Centro de Saúde de Chitobe, que atende a população de Machaze, 183 pacientes seropositivos, dos quais 24 estão em tratamento antiretroviral.
Francisco Chocolate, director distrital de saúde de Machaze, revela que não há prevenção da transmissão do HIV da mãe para o filho.
Segundo ele, falta financiamento, pessoal qualificado, e armazéns para os materiais médicos e medicamentos. Para testes sanguíneos, as amostras são enviadas ao laboratório provincial, na capital, Chimoio, processo que dura no mínimo 14 dias.
“Esta situação tem contribuído grandemente para se travar o alastramento da terapia antiretroviral aos postos administrativos e localidades”, diz Chocolate ao PlusNews.
Com 101.000 habitantes, Machaze tem uma seroprevalência de 16,7 por cento, enquanto a média nacional é 16.2 por cento.
Apoio dos curandeiros
Por outro lado, o distrito começa a ter, como aliados na campanha contra a Sida, os médicos tradicionais.
Composta por dois grupos étnicos, o Ndau, ao Norte, e o Changana, ao Sul, a população de Machaze, assim como a maioria em Moçambique, acredita nos curandeiros para resolver os seus problemas de saúde, espirituais e outros.
O médico tradicional Zacarias Saize Mathepsua não sabe ao certo quando nasceu. Ele vive no meio do mato, tem seis esposas, 21 filhos e cerca de 30 netos.
Ele é um dos curandeiros mais respeitados e líder da Associação dos Médicos Tradicionais de Moçambique em Machaze.
“Tenho frequentemente recebido madjonidjone, alguns já em situação dramática, com doenças agudas relacionadas com HIV/Sida. Trato de varias maneiras, mas depois mando ao hospital”, disse.
Para travar a Sida em Machaze, cada aliado e cada esforço importa. |