|
MAPUTO, 23 Março 2007 (PlusNews) - A Tuberculose, uma doença dos pulmões associada com freqüência à Sida, é muito comum em Moçambique. Mas esta a surgir em África Austral uma nova forma muito letal da TB que o pais não tem capacidade de diagnosticar .
A TB é uma doença muito contagiosa que normalmente é fácil de detectar e tratar. O doente toma comprimidos baratos sob supervisão médica ao longo de vários meses e fica curado.
Mas Moçambique começa a enfrentar novas e alarmantes formas da TB que resistem ao tratamento com medicamentos tradicionais e podem causar a morte rápida do doente.
A mais temida de todas é a TB super-resistente, conhecida oficialmente pelas siglas XDR-TB. O nome vem do inglês “Extensively Drug Resistant” (Extra Resistente a Medicamentos).
A XDR-TB já esta a causar estragos na África do Sul, Lesoto e Suazilândia e a Organização Mundial da Saúde (OMS) coordena uma campanha global para combate-la.
No 24 de Março de 2007, declarado Dia Mundial contra a Tuberculose, irá destacar o problema.
A XRD–TB resiste todos os medicamentos de primeira linha utilizados para lutar contra a Tuberculose. Também resiste pelo menos um dos três medicamentos injectáveis de segunda linha.
Só um caso comprovado
Porém, Moçambique, onde se registram mais de 36,000 casos de Tuberculose por ano, ainda não tem um laboratório médico capaz de diagnosticar a XRD-TB.
Até o momento foi comprovado apenas um caso de TB super resistente em Moçambique, segundo o Ministério da Saúde.
Este caso foi detectado em Maputo e o diagnostico foi confirmado por um laboratorio em Africa do Sul.
Já existe outro caso suspeito de XDR-TB na capital. Mas neste país de 19.8 milhões de habitantes onde a metade da população não usa a medicina moderna, receia-se que podem existir mais.
Se não houver meios eficazes de detecção e controle, a Tuberculose espalha-se facilmente. A doenca afecta sobre tudo os pulmoes, embora tambem pode aparecer em outras partes do corpo.
O perfil da XDR-TB
- Uma forma de Tuberculose super- resistente ao tratamento
- Resiste os medicamentos de Tuberculose de primeira linha e resiste pelo menos um dos três medicamentos injectáveis de segunda linha (capreomycin, kanamycin e amikacin)
- Com tratamento adequado a XDR-TB pode ser curado em 50 a 60 por cento dos casos.
- As pessoas com HIV/Sida são particularmente susceptíveis a XDR-TB.
- O diagnostico de XDR-TB leva entre seis e 16 semanas.
- A TB desenvolve resistência ao tratamento quando um doente toma irregularmente os medicamentos ou interrompe a terapia.
- Para mais informação consulte os sites www.stoptb.org e www.who.int/tb
Fonte: OMS
|
Um doente de XDR-TB pode contagiar os seus próximos quando fala, tosse ou esternuta através do ar infectado que expira, sobre tudo em recintos fechados com pouca ventilação.
Aqueles que correm mais risco de contagio incluem os seus próprios familiares e os médicos e enfermeiros que o tratam.
“Existem normas e técnicas que os profissionais de saúde precisam cumprir para evitar uma infecção de TB, mas sempre há descuidos,” declarou Custodio da Cruz, um medico que trabalha na Beira, a segunda cidade de Moçambique.
“Quando vou tratar um doente com TB e HIV sempre fico com medo, pois por um azar ou por um descuido posso acabar me infectando.”
Não há motivos para pânico
Contudo, as autoridades não querem exagerar o perigo.
“Não temos motivos para pânico”, diz a responsável por este tipo de Tuberculose no Ministério da Saúde, Zaina Mutua Cuna. “Temos um bom programa de TB.”
Pode ser, mas a Tuberculose super-resistente já foi reconhecida como problema sério na África do Sul.
A XDR-TB apareceu na província de KwaZulu Natal que faz fronteira com o extremo sul de Moçambique no principio de 2006.
Segundo a OMS, até o mês de Agosto 52 dos 53 pacientes infectados com o super bacilo num hospital de KwaZulu morreram.
A maioria tinha também HIV/SIDA e aqueles que recebiam terapia antiretroviral sucumbiram tão rapidamente como os demais.
Para o tratamento da TB normal em Moçambique, utilizam-se cinco medicamentos de primeira linha. Segundo Cuna, quando pelo menos dois desses medicamentos não agem, passa-se para outros de segunda linha, que são mais caros.
A partir daí o paciente já é considerado portador da MDR-TB, ou seja, a TB resistente a muitos medicamentos.
Agora se houver também resistência de dois ou três remédios da segunda linha, afirma Cuna, o paciente é suspeito de XDR-TB.
Interrupção do tratamento
As TBs resistentes devem-se ao mau tratamento. Um paciente que interrompe a terapia ou a faz errada, pode criar “super bacilos” e acabar por transmiti-los a outras pessoas.
Em Moçambique, durante a fase crônica da doença, que são as primeiras quatro semanas, o doente é obrigado a voltar ao centro médico a cada três dias.
“É chato, mais é o necessário”, afirma Maria Angélica Salomão, oficial de Tuberculose da OMS no país.
Porém, alguns pacientes moram longe de uma unidade sanitária e não assistem regularmente. Outros abandonam o tratamento.
Segundo Salomão, sete por cento dos pacientes da Tuberculose em Moçambique interrompem a terapia.
Moçambique está em 19° lugar no ranking dos 20 países responsáveis por 80 por cento de todos os casos da Tuberculose no Mundo.
Segundo a OMS, em 2004, um em cada 217 moçambicanos tinha TB.
A prevalência de MDR-TB, a forma mais moderada de resistência ao tratamento, foi de 3.3 por cento. Houve mais de 1,000 casos.
E quase a metade dos doentes de Tuberculose detectados em Moçambique tinha HIV/SIDA.
Cuna acredita que não há muitos casos de XDR-TB no país, mas com certeza mais que o único até então diagnosticado.
Ela lamenta que não há em Moçambique tecnologia para diagnosticar este tipo de TB. Quando há desconfiança, o paciente é enviado para a África do Sul.
Porém, o tempo médio que leva para um doente ser considerado suspeito de XDR-TB é de quatro a seis semanas. Enquanto isso, ele pode morrer ou transmitir a doença para muitos.
Se uma pessoa com HIV/SIDA contrair a XDR-TB, o que não seria difícil devido a seroprevalência média de 16.2 por cento em Moçambique, a dupla infecção tende a ser fatal em poucas semanas.
Possíveis Estratégias
A organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF) defende uma junção do atendimento de HIV e TB num mesmo centro médico, pois são doenças relacionadas.
A TB é a principal infecção oportunista entre os seropositivos, informa a coordenadora médica da MSF-Suíça em Moçambique, Barbara Maccagno.
Mas segundo ela, os profissionais de saúde que atendem pacientes com TB pulmonar não devem cuidar de seropositivos para não serem agentes transmissores do bacilo.
Maccagno acredita que a prevenção da XDR-TB depende da boa aderência ao tratamento, o diagnósticos rápido e o uso de protecção respiratória nas áreas de alto risco.
“Os esforços para se ampliar o tratamento da Sida estão a crescer em África e o mesmo tem que acontecer contra a TB”, diz ao PlusNews.
Para Salomão da OMS, a principal desafio de Moçambique é expandir a rede laboratorial de análises da TB, que hoje está em torno de 250.
“Estamos a progredir, mas a Sida chegou e complicou ainda mais o controle da TB”, acrescenta.
Cuna, do Ministério da Saúde, diz que 42 profissionais já foram treinados para identificar casos de TBs resistentes. A idéia agora e formar lideranças comunitárias para que estes ajudem os doentes a chegarem nos centros médicos.
“Se há suspeita, a ordem é colocar dentro do avião é mandar para Maputo fazer o teste de resistência”, comenta.
No final de 2006, a OMS disse que US$ 95 milhões deveriam ser gastos para enfrentar a XDR-TB em África Austral em 2007, sendo 40 milhões para remédios de segunda linha, 35 milhões para prevenção e avaliação e cinco milhões para kits de diagnóstico rápido.
Mas segundo Cuna, Moçambique ainda não recebeu um tostão de ajuda internacional para o seu próprio programa de controle.
“Fazemos o possível e tentamos cada vez mais avançar dentro dos nossos limites”, comenta. |